Notas sobre como ser mais feliz e abraçar a dor pra valer

De vez em quando, se você der sorte, os Anjos da Leitura vão te abençoar e você vai encontrar um livro que vai mudar toda a sua vida. 360 graus de diferença, da água pro vinho. Como se toda a sua filosofia de vida fosse uma mão e ela entrasse na luva perfeita. Todos os pensamentos que você não conseguia colocar em palavras e vários posicionamentos lúcidos e inteligentes que você nunca conseguiu tomar reunidos em um lugar só. E se você realmente der sorte, pode até encontrar um escritor ou uma escritora inteligente e mordaz que faz o processo ficar mil vezes mais incrível.

E adivinha o que aconteceu comigo nas últimas semanas?

Exatamente isso. Um encontro com um dos Livros Mais Fabulosos da Minha Vida – assim, do nada. Sem nenhum aviso prévio, sem nenhum alarde. Um amigo já tinha me recomendado esse livro fazia alguns meses. Eu coloquei o título na minha lista de desejos e quando terminei o penúltimo livro que estava lendo fui fuxicar as minhas próximas opções. Como vocês sabem bem à essa altura do campeonato, eu sou fascinada por livros de autoajuda e de desenvolvimento pessoal. Tinham vários desse tipo na lista, naturalmente. Todos muito bons, todos promissores.

Diante de tantas possibilidades, resolvi dar uma chance para esse livro - que, afinal de contas, já tinha sido fortemente recomendado. A Sutil Arte de Ligar o Foda-se foi lançado semana passada aqui no Brasil pela Intrínseca. Eu comprei em inglês mesmo, na versão ebook. Li durante algumas semanas e fiz um esforço quase sobre-humano para fazer a leitura durar. Eu não queria que esse livro acabasse nunca, cara. 😕

Infelizmente, contra todos os meus melhores esforços, ele acabou.

E apesar disso não ser bom, pelo menos agora eu tenho dois caminhos muito bons na minha frente: (a) falar e compartilhar com vocês parte das pérolas fantásticas que eu aprendi com o autor e (b) reler ele ano que vem. Porque eu já tenho certeza absoluta que ele vai ser relido muitas e muitas vezes. As ideias desse livro são atemporais.

Elas servem para qualquer um, em qualquer lugar e com qualquer idade. O Mark Manson é um escritor de um porte tão incrível e ele escreve com tanta segurança, leveza e informalidade que nossa senhora. É uma delícia imensa ler esse livro. Você sequer sente o tanto que você está aprendendo. Esse não é um livro típico de autoajuda e o Mark não te trata como um idiota. Ele também não presume nada e não te pede para ter nenhum tipo de conhecimento anterior.

Os temas abordados são sortidos, mas todos eles passam pela seguinte pergunta: como eu posso ter sucesso de verdade? Qual é a forma mais inteligente, realista e madura de me posicionar perante a vida? Ele fala da morte, da necessidade de aceitarmos os nossos momentos de dor e de sofrimento, de como ter relacionamentos amorosos mais lúcidos e dos benefícios de escolhermos melhores valores para a nossa vida. Não existe uma única página à toa nesse livro, minha gente.

Tudo é relevante e muito bem amarrado.

Se você estiver procurando por uma leitura que vai jogar umas verdades incômodas e difíceis na sua cara, leia esse livro. Você vai sair muito mais forte do outro lado. Se você estiver querendo dar umas boas risadas, te recomendo a mesma coisa: leia esse livro. Dessa mistura doida de doce e de amargo, de acolhimento e de tapas na cara, você vai tirar um elixir muito potente que vai te ajudar pro resto da sua vida.

 
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Tentar evitar a dor é dar muita importância para ela. Por outro lado, se você consegue ligar o foda-se para a dor você se torna invencível.

Antes de eu dar os meus dois centavos de contribuição sobre o tema dessa frase, deixa eu te falar o subtítulo desse livro: uma abordagem contraintuitiva para ter uma vida boa. O Mark vai se concentrar, antes de tudo, em desconstruir premissas e desfazer algumas crenças congeladas que nós geralmente temos.

E eu não consigo pensar em uma atitude mais estabelecida do que o nosso costume de evitar o sofrimento e a tristeza. E eu digo isso de um lugar de quem já fez isso por muitos e muitos anos - e talvez até faça ainda, hoje em dia. Se acostumar com todo o leque de emoções humanas e aprender a engolir algumas coisas, especialmente amargas e dolorosas, nunca vai ser algo fácil. Nem pra mim e nem pra ninguém.

Mas como diz o Mark, é mais do que necessário: é essencial.

“Ligar o foda-se” para a dor não é o mesmo que evitar a dor, muito pelo contrário. Quando você se importa e dá muita atenção aos sofrimentos da vida – se contorcendo e fazendo corpo duro toda vez que alguma decepção ou tristeza entram na sua vida – eles ficam mais fortes. E quanto mais você tenta se afastar desses sentimentos difíceis, porém necessários, mais controle eles têm sobre você. Quando você abraça eles e os trata exatamente como eles são, as coisas fluem muito melhor.

É aquela velha lógica de se permitir mergulhar na fossa com os dois pés.

Não para se vitimizar ou para se açoitar, e sim para viver. A sua dor merece ser vivida tanto quanto qualquer sentimento positivo e caloroso. Porque ela mereceria menos do que a sua total atenção? Só porque ela te deixa na merda? A gente nunca sabe da onde vão nascer as melhores oportunidades dessa vida. E o universo não opera apenas no modo “verão feliz cheio de saúde e felicidade” o tempo todo.

 

Uma pergunta interessante que a maioria das pessoas nunca considera é: “Qual tipo de dor você quer na sua vida? Pelo o que você está disposto a lutar?”. Esse parece ser um fator bem mais decisivo para o tipo de vida que você termina tendo.

Antes de tudo, um contexto: segundo o Mark, a gente é feliz quando resolve problemas. Uma vida inteira baseada em estar satisfeito e em sentir prazer o tempo inteiro não traria felicidade, segundo ele. Saber que você é capaz de resolver os seus problemas é um fator essencial nessa equação, também. O abatimento é certo quando alguém sente que não tem poder ou força suficiente para mudar a sua situação. E, por mais problemas que você tenha, a parte mais importante dessa história é saber que você tem o que é necessário para encontrar uma solução.

Se uma vida feliz é uma vida baseada em resolver problemas (cada vez melhores, mais luxuosos, mais prósperos e mais interessantes), a gente pode partir do princípio que sempre vão existir problemas. Esse é o passo número um. Ao invés de tentar bloquear os problemas, fugir dos problemas e fingir que eles não existem, porque não aceitar que você vai sempre se foder um pouquinho sim? Essa estratégia é muito boa por dois motivos: (1) é a mais pura verdade e (2) ela te dá o poder de decidir que tipo de dor e que tipo de problemas você vai aguentar bancar.

Pelo o que você está disposto a lutar?

Qual é o sofrimento que, sendo inevitável, pelo menos serve à uma causa maior e a um propósito que realmente mexe contigo? Atenção para não confundir essa pergunta com o discurso de “todo artista precisa sofrer e é através da penitência que nós vamos alcançar a nossa glória”. A minha perspectiva não é nenhum pouco judaica-cristã, muito pelo contrário. O Mark não está te dizendo para buscar um caminho sofrido. Ele simplesmente quer que você aceite que a dor é um fato da vida e que, já que você vai sofrer e se decepcionar várias vezes de qualquer forma, é melhor que você faça isso por um bom motivo. Um bom motivo para você.

Ser empreendedora no Brasil, por exemplo, é uma empreitada que trás alguns problemas. Eu sou consultora, escritora e professora e faço todas as tarefas do site sozinha. Por mais incrível que seja o meu trabalho e por mais abençoada que eu seja (por ter segurança financeira e emocional suficiente para não precisar ter um emprego comum), os problemas ainda existem. Os problemas sempre existem, meu povo.

Mas, no fim do dia, vale totalmente à pena.

Quanto mais problemas eu puder resolver em nome da minha vocação, melhor. Quanto mais eu puder criar e lapidar o meu trabalho e a minha forma de contribuir para a sociedade, melhor. É um luxo que nem todo mundo tem? Sim. É também difícil e desafiador e às vezes me faz ter vontade de jogar tudo pro alto e chorar de cansaço? Com certeza. Eu escolheria outro caminho? Jamais.

Essa é a minha luta e esses são os problemas que eu recebo de braços abertos.

 

Muitas pessoas hesitam em assumir a responsabilidade pelos seus problemas porque elas acreditam que ser responsável por um problema é a mesma coisa que ser culpado por ele.

E esse simplesmente não é o caso. Essa distinção me abriu tanto os olhos, gente. Foi um momento de estalo enorme e mil e cem fichinhas caíram todas juntas. Alguns parágrafos depois dessa frase o autor faz uma analogia que me ajudou a entender ainda mais a diferença entre culpa e responsabilidade.

Segundo ele, culpa é o passado e responsabilidade é o presente. Não importa o que aconteceu com você na sua infância, na sua adolescência ou na sua juventude. Não importam as pessoas, ou eventos ou as circunstâncias que fizeram você se sentir mal, que criaram traumas ou que incentivaram os seus defeitos ou as suas paranóias – tudo isso está no passado. Você pode ter sido parcial ou totalmente culpado por essas coisas, talvez. Ou pode ter sido apenas uma vítima.

No fundo no fundo, não importa. A responsabilidade agora é sua.

Simplesmente porque o seu momento presente e a vida que está acontecendo agora, nesse exato momento, são seus. O controle é total e inteiramente seu. Você pode levar esse navio para onde você quiser – e essa é a sua verdadeira responsabilidade. Discutir quem foi culpado ou encontrar alguém para quem apontar o dedo é um exercício que costuma piorar mais do que melhorar as coisas, essa é a verdade.

Se concentre nas suas escolhas de hoje.

A decisão de como reagir aos imprevistos e às surpresas da vida nunca vai ser tirada de você. Ela nasce contigo e ela morre contigo. Tudo o que está acontecendo com você atualmente é de sua responsabilidade, sem exceção.

 

Não existe ideologia perfeita. Existe apenas o que a sua experiência demonstrou ser o certo para você – e até essa experiência provavelmente está um pouco errada também.

A incerteza, a mudança e a imprevisibilidade são os três pilares fundamentais da nossa vida, fato. O seu sistema de organização, o seu planejamento semanal e anual e as suas listas de tarefas diárias são meras ferramentas que te ajudam a potencializar o seu controle. Eles são úteis, mas o controle nunca é totalmente seu.

E até os seus sistemas de organização vão mudar também, ao longo do tempo.

Nada permanece o mesmo, nunca. E querer ir contra essa lei é comprar uma derrota feia e fatal pro seu lado. Nesse capítulo, em especial, o Mark estava falando sobre a importância de continuar sempre aprendendo e de nunca ter certeza absoluta de nada – nem mesmo dos seus valores basilares e das intuições que, hoje em dia, parecem ser tão firmes quanto pedras. Amanhã tudo pode mudar.

E você precisa estar disposto e aberto para essas mudanças.

Lembra da ideia que a responsabilidade é sempre sua? Isso continua sendo verdade. A sua reação cabe à você - e esse leque de opções sempre vai ser rico e abrangente. Ninguém nunca te garantiu que as coisas iam sair do jeito que você planejou. Mas, por outro lado, você sempre tem o poder de dirigir e de guiar a sua vida para onde você bem entender. Uma coisa não existe sem a outra, percebe?

E essa é a graça da vida. Essa é a graça da organização, inclusive. Valsar com os acontecimentos, com as surpresas e com os imprevistos de um jeito humilde e assertivo. Sabendo se colocar e fazer acontecer as suas vontades e, ao mesmo tempo, respeitando o caos natural da vida.

 

A vida é sobre não saber o que fazer a seguir e fazer as coisas ainda assim. A vida inteira é desse jeito, nunca muda. Nem mesmo quando você está feliz. Nem mesmo quando você peida pó mágico de fadas. Nunca se esqueça disso. 

Executar vale mil vezes mais do que apenas desejar. Intencionar, fantasiar, planejar, imaginar, querer com toda a força do seu corpo são os primeiros passos, é claro. É impossível fazer acontecer os seus projetos valiosos quando você não sabe o que você quer. Mas como eu já disse nesse texto aqui, tome muito cuidado com a falta de atitude. Ela é o veneno mais fatal que existe nesse mundo.

E o que o autor ressalta nesse trecho fabuloso é justamente isso: não saber o que fazer é uma regra do jogo. Por mais velho que você fique e por mais experiente que você se torne, sempre vão haver situações inovadoras e desafiadoras. Você sempre vai ter algum grau de dúvida, de insegurança ou de medo. Sempre, sempre, sempre.

Não importa o quanto dinheiro, fama ou felicidade você tenha.

Essa é outra constante da vida que nós não temos como mudar.

A incerteza sempre vem à tona. E eu nem acho que isso seja algo ruim, dizendo a verdade. A vida não existe para que você esteja cem por cento seguro e certo de si o tempo todo. A vida é descoberta. E pra que você descubra coisas novas, precisa haver uma abertura. Eu gosto muito desse trecho porque ele também me lembrou de um princípio muito importante: o caminhar é mais valioso do que o destino.

E bem, é claro que todos nós gostamos de conquistar coisas.

Todo mundo gosta de um destino bonito, caloroso e rico. Mas passar a vida inteira esperando que X ou Y aconteça para que, então, você possa ser feliz - essa é a maior roubada da face da Terra. Esperar quinze ou vinte anos para que você consiga X ou Y para, só depois, ir atrás do que você realmente quer é um ingresso direto para a terra dos Sonhos Que Nunca São Postos em Prática. E assim como o inferno está cheio de boas intenções, o mundo da produtividade está cheio de pessoas que tem uma ideia clara do que querem e tomam 0 atitudes para colocá-las para rodar.

 

A morte é a única coisa da qual a gente tem certeza. E, por isso, ela deve ser a bússola que orienta todos os nossos outros valores e decisões.

Se você morresse amanhã e hoje fosse o seu último dia de vida, o quão importante seriam as tarefas que você fez? Eu sei que essa pergunta é tão clássica que quase chega a ser clichê, mas vamos dar uma pausa na correria e pensar nela pra valer. Perante o fim de todas as coisas e do afastamento de tudo o que você conhece, o quão grandes são os seus problemas? Diante da possibilidade de nunca mais respirar e de nunca mais abrir os olhos, o quão certas estão as suas decisões de vida?

A gente realmente só repara que está vivendo com os valores errados quando encaramos a possibilidade de morrer. Se você se jogar do andar mais alto do prédio mais alto amanhã, o que é que a sua vida vai ter significado? Você está criando e moldando a sua realidade com filosofias que vão te levar aonde você quer?

Ou você está desperdiçando tempo, energia, paz e dinheiro?

A morte é o nosso bálsamo final, senhoras e senhores.

E ela só tem algum sentido quando nós bancamos a responsabilidade de guiar a nossa vida de acordo com os valores que nos permitem desfrutar e aproveitar o nosso tempo aqui de verdade. Como dizia o Flávio Gikovate: “a vida não tem nenhum sentido, mas não é proibido lhe atribuir um”. Qual é o sentido da sua vida? Ou, pelo menos, da sua semana? Se você soubesse que iria morrer amanhã, pintaria algum arrependimento? Será que a presença irrevogável da morte colocaria alguma coisa (projeto, atitude ou decisão) sob uma nova luz?


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