Entrevista com Thais Godinho: dicas para uma vida organizada

Aquilo que te faz agir nem sempre é aquilo que te mantém agindo. E uma das belezas mais agridoces da vida é saber reconhecer quando uma coisa que já te serviu muitíssimo não está agregando nada mais à festa. Esse é um sentimento muito confuso. Por um lado, você é grato. Afinal de contas, foi só por causa daquela situação ou daquela pessoa que você chegou até aqui. Mas, ao mesmo tempo, você sabe que vocês já não estão mais se encaixando – e as desvantagens começam a fazer volume.

Parece que eu estou falando de sentimentos amorosos profundíssimos e complexos (e é claro que essa descrição serve para eles também), mas a verdade é que eu estou falando do GTD – e se você precisa de uma tecla SAP, venha nesse texto aqui descobrir o que é o GTD. Quem me acompanha no blog há mais tempo já deve ter lido em algum lugar que eu era super hiper mega fã do GTD. Foi ele, juntamente com o site da Thais Godinho, que me fez despertar para essa parte mágica e incrivelmente fascinante da vida: a organização pessoal e o planejamento.

Isso foi lá em 2007.

Dez anos depois, olhando em retrospecto, consigo ver claramente que o GTD foi o meu primeiro amor. Eu sei que essa metáfora é meio doida, mas a verdade é que foi ele quem me iniciou no caminho da organização. Eu devo absolutamente tudo o que eu sou e boa parte do que eu sei à ele e ao David Allen. E assim como acontece com o nosso primeiro amor, nem sempre os métodos organização duram pra sempre.

Às vezes você precisa terminar.

Mas, ainda assim, você nunca esquece. Por mais namorados ou namoradas que você tenha, por mais maravilhoso que seja o seu casamento, você nunca vai tirar totalmente da cabeça as marcas e as lições que aquele grande primeiro amor te ensinou. É só uma regra da vida. Quer a gente queira quer não, o primeiro amor é um rito de passagem. E os ritos de passagem ficam guardados em um lugar especial.

A nossa entrevistada de hoje também é alguém muito especial.

A Thais Godinho provavelmente dispensa maiores apresentações, mas para quem não sabe quem ela é aqui vai uma ficha básica: ela já lançou dois livros – Vida Organizada e Casa Organizada –, é palestrante, professora oficial do método GTD e escreve no seu blog, Vida Organizada, desde 2006. Em suma, ela é pioneira.

Foi com a Thais que eu comecei a estudar sobre organização pessoal, produtividade e planejamento de vida. Ela sempre foi tão didática e tão direta nas suas explicações que foi impossível para mim não devorar todos os artigos do blog em poucos dias. Não muito depois de eu a conhecer eu comprei o livro Fazer Acontecer, do David Allen, e comecei a minha jornada de dois ou três anos de usuária ativa do GTD.

E bem, sejamos justos.

A Thais é muito mais do que apenas a sua relação com o GTD – e quem a acompanha sabe disso. Mas esse método (que é bem mais do que apenas um método, na verdade) foi tão importante para a minha história que seria impossível não enfatizar esse ponto. Principalmente para ressaltar o que eu disse lá no primeiro parágrafo: aquilo que te faz agir nem sempre é aquilo que te mantém agindo.

Para mim, o GTD foi o pontapé inicial.

E apesar de ser difícil admitir que esse método não se encaixa mais comigo hoje em dia, eu o valorizo e o respeito muitíssimo. Sem ele e sem a Thais eu com certeza não estaria aqui enchendo o saco de vocês hoje. Eu jamais teria começado esse blog se não fosse por ela e pela paixão que ela passa quando fala desses temas.

Foi ela quem me ensinou a planejar – e, mais importante de tudo, foi ela quem me ensinou a procurar aquilo que funciona bem para mim. Eu faço coro à esse conselho. Não tenha medo de buscar alternativas novas e de testar ideias inesperadas. A sua organização com certeza vai se beneficiar muito com isso. Mas também não tenha medo de cortar da sua vida aquilo que não está funcionando mais.

É assim que a gente evolui e ganha novas experiências.

E eu adorei demais as respostas da Thais, nossa. Elas são muito maduras, muito precisas e, interessantemente, são bem diferentes do que eu tenho feito nos últimos meses. Aí é que a coisa fica boa de verdade. Eu quero sempre trazer para cá pontos de vistas diferentes do meu e oferecer a vocês um banquete rico e variado de opiniões e de temperamentos. Eu quero mostrar para vocês que sim, todo mundo consegue se organizar. Opções não faltam e vocês com certeza não estão sozinhos.

Se eu puder fazer por vocês sessenta por cento do que a Thais fez por mim – mesmo de longe, sem saber – eu já me considero uma mulher de sucesso. 👌

 
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O seu jeito de se organizar e de planejar os seus objetivos de vida mudou nos últimos anos em algum aspecto? Se sim, qual?

Acredito que venha amadurecendo ao longo dos anos, mas não mudou significativamente. Eu uso o método GTD há bastante tempo e organizo e acompanho os meus objetivos de acordo com o que o David Allen ensina. Basicamente, ele tem uma abordagem chamada Horizontes de Foco, onde você consegue ter uma análise de prioridades. O Horizonte 3 trata dos objetivos de curto prazo e das metas - tudo o que quero que seja verdade na minha vida até daqui a dois anos. Eu tenho uma listagem de tudo o que quero alcançar nesse período tanto no âmbito pessoal quanto no profissional. O Horizonte 4 trata dos objetivos de longo prazo, que seriam o estilo de vida que estou construindo para mim. São duas categorias distintas de objetivos que requerem revisões regulares para alinhar os projetos em andamento. Elas são revisadas em frequências variadas. Tem vezes que me sinto compelida a revisar mais, para alinhar o foco, e tem vezes que dou um espaçamento maior, de uns três meses.

 

O que você costuma fazer quando está se sentindo estafada e precisar recarregar as baterias?

Eu me pergunto qual é a coisa mais importante que preciso fazer naquele momento – o que, muitas vezes, é deitar com os olhos fechados durante 20 minutos para recuperar as energias. Ou tocar violão, tomar um banho, fazer uma caminhada. Eu sempre respeito muito o meu corpo e o meu estado mental, porque sei que se não fizer isso eles me forçarão a fazer mais adiante, da pior maneira possível (ficando doente, por exemplo). Isso para as estafas do dia a dia. Se for algo que comece a ficar frequente o que eu realmente faço é analisar as minhas áreas de foco e as responsabilidades atuais, tanto na vida pessoal quanto no meu trabalho, e delegar algumas funções. Não tem como organizar tralha. E tralha é algo que a gente vai gerando diariamente, à medida que vive e evolui em diversos aspectos na nossa vida. Portanto, fazer essa análise de tempos em tempos é essencial para tirar da vida aquilo que não faz mais sentido manter e que só ocupa espaço, causando a sobrecarga.

 

Qual foi a compra de menos de cem reais que mais melhorou e otimizou a sua vida nos últimos meses?

Comprei uns fichários da Chies na Kalunga (18 reais cada) para arquivar alguns materiais de referência do GTD que estavam encadernados separados. Organizei por níveis de aprendizado e isso me ajudou muito a colocar em ordem os assuntos que vou estudar.

 

Qual foi o pior conselho que você já escutou alguém dar dentro da sua área ou do seu meio de trabalho?

"Planeje o seu dia seguinte". Não é que o conselho seja ruim, mas é vago e exclui outras práticas importantes. Se você planejar os seus dias diariamente você perde a visão macro, o que é de fato prioridade, e acaba só reagindo ao que for é urgente e está gritando mais alto. É importante planejar os dias sim, mas também planejar as semanas, os meses, os compromissos com mais antecedência, os projetos e ter noção dos prazos – e não fazer isso apenas de um dia para o outro. De um dia para o outro você pode, no máximo, revisar o que vai fazer e providenciar algumas coisas para facilitar (separar que roupa vai usar etc.), ou estabelecer metas curtinhas (finalizar tal coisa antes do almoço, por exemplo). Você não pode basear todo o seu planejamento nesse único planejamento diário.

 

Quais são as estratégias específicas que você usa para planejar e organizar as suas metas do ano?

Não organizo necessariamente metas para o ano, mas trabalho sim com o horizonte de "até dois anos" que o David Allen propõe. Isso garante um período de tempo mais confortável para trabalhar com metas. Eu também tenho metas mais curtas, para três meses, por exemplo, mas gosto de ter esse horizonte de até dois anos para trabalhar naquilo que for maior que os projetos - esses, sim, eu concluo em até um ano. São as entregas. Esses são revisados semanalmente.

 

Se você pudesse escrever qualquer coisa em um outdoor bem grande, bem no centro da cidade, o que seria?

"Não dá pra organizar tralha. Destralhe sua vida."

 

Você tem algum tipo de ritual para começar bem a manhã? Como costuma ser a primeira hora do seu dia?

O meu ritual da manhã começa, na verdade, na noite anterior: separando minha roupa, vendo a previsão do tempo, arrumando a minha mochila (se eu for sair) e dormindo em um horário que me permita descansar sete horas e meia (meu período de sono ideal). Pela manhã, gosto de fazer as coisas com calma e meditar antes de iniciar o dia propriamente dito.

 

Qual é o hábito mais simples que você tem e que mais te ajuda a se manter produtiva durante a semana ou durante o dia?

Parar algumas vezes ao longo do dia para processar e esclarecer as anotações, e-mails e papelada que chegaram até mim.

 

Qual tem sido a sua maior pedra no sapato em relação à organização e ao planejamento, ultimamente?

Nenhuma. Tudo o que entra, entra no fluxo.

 

Me diga uma coisa na qual você firmemente acredita mas a maioria das pessoas acha totalmente doida.

Eu acredito firmemente que as notificações nos atrapalham – e eu desligo todas as do computador e do celular, para poder gerencia-las apenas quando eu olho as mensagens que chegam até mim. Todo mundo me considera maluca por fazer isso. Mas mais louco é quem me diz e não é feliz, rs.


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