Ler ou acumular? Uma história sobre livros empoeirados

De modo geral eu consigo fugir dos esteriótipos, mas, quando o assunto é quantidade de livros parados na estante, eu sou um enorme clichê.

Literatura e livros de não-ficção sempre foram a minha praia.

Entrar na faculdade de Letras e passar vários anos mergulhada em teorias, comparações, gramática & interpretação de texto foi um luxo maravilhoso que só reforçou todo o meu amor pelas palavras.

Eu adoro ler desde que me entendo por gente e, com o passar dos anos, esse amor acabou tomando as terras vizinhas, estendeu o seu domínio e eu passei a adorar comprar livros também.

Duas coisas correlatas que disparam reações e prazeres totalmente distintos no cérebro, perceba. O gosto pela leitura geralmente é anônimo, solitário e banhado em pontos de vistas antes desconhecidos.

O gosto pela compra de livros, quando exagerada, chega perto do terreno do consumismo vazio – e, nesse caso, a adrenalina existe pelo simples fato de você possuir mais um objeto.

E tudo bem.

Enquanto a vida de estudante me favoreceu, eu comprei e li livros à beça.

 
 


Mas foi passando o tempo, as responsabilidades aumentaram e uma coisa curiosa começou a acontecer: eu não conseguia mais dar conta.

A emoção de comprar livros nunca diminuiu, mas a capacidade, tempo e interesse pela leitura foram variando. A estante ficava cada vez mais cheia e as poeiras em cima dos livros começaram a fazer aniversário.

E antes que alguém pergunte, já me defendo e digo que eu não vejo problema nenhum em criar uma coleção. Algumas pessoas adoram a ideia de ter uma biblioteca em casa, com centenas de títulos à sua disposição e isso é incrível!

Mas eu comecei a ficar incomodada.

Ver um bando de livros parados quebra o meu coração. Especialmente porque às vezes eu acabava lendo primeiro os livros mais recentes, e alguns dos antigos simplesmente iam sendo passados para trás.

Depois de muito raciocinar, pesquisar e olhar para dentro de mim, reconheci que a lógica do minimalismo e do essencialismo precisava entrar no jogo.

Quais livros eram realmente essenciais para mim? Quais deles eu certamente ia querer reler no futuro? Quais eram os livros da minha vida e quais não faziam mais nada por mim hoje em dia?

Porque eu realmente precisava comprar livros novos todo mês?

Qual buraco ou vazio eu estava tentando preencher? Qual era a sensação que eu queria sentir ao comprar todos esses livros – mesmo sabendo que não ia lê-los por alguns meses?

Comprar um livro que eu queria muito ler me dava a sensação de ser culta, inteligente e com um futuro promissor. Qualquer que fosse a situação merda que estivesse acontecendo na minha vida, tudo bem: pelo menos eu tinha um estoque generoso de conhecimento do meu lado.

E se eu simplesmente não comprasse livros e me dedicasse simplesmente a ler os que eu já tinha na estante? Isso seria o suficiente? Bom, seria melhor do que nada, mas entendi que comprar novos livros era parte essencial do meu processo de me sentir bem comigo mesma.

Reparei que eu tinha perdido um pouco da minha auto suficiência e estava colocando o meu valor e a minha noção de sucesso em objetos externos.

Decidi, então, comprar livros novos apenas na medida em que ia lendo os que eu já tinha. Alguns anos se passaram desde essa decisão e fico feliz de informar que ela deu muito certo!

Eu quis compartilhar essa história com vocês por alguns motivos. Primeiro porque talvez você mesma esteja passando por essa situação.

Não digo para você simplesmente dar toda a sua biblioteca, mas repare bem nela e veja se todos os seus títulos realmente te representam. Você ainda curte todas essas histórias? Ainda concorda com todas essas opiniões?

Será que alguma outra pessoa – sem condições financeiras, com menos gosto pela leitura ou com um horizonte literário mais reduzido – não adoraria conhecer essas ideias? ☘️

Praticar o desapego e deixar o nosso próprio ego de lado, nem que seja um pouquinho, pode fazer uma baita diferença na vida dos outros, minha gente. Tire um dia para tirar todos os seus livros da estante e realmente se conectar com cada um deles.

Faça uma pilha com todos aqueles que são indiferentes e que não te despertam mais nada de especial ou de emocionante e doe. Para os seus amigos, sobrinhos, filhos de colegas, instituições de caridade ou ONGs.

Também quis compartilhar isso porque ando surfando na onda de me perguntar: o que é realmente relevante para a minha vida?

Assim, de verdade?

Ter uma estante cheia de livros é bem legal, mas até que ponto você ainda lembra de todas essas histórias? Até que ponto ser culto e ter lido de tudo um pouco realmente faz a sua vida andar pra frente?

As respostas para cada uma dessas perguntas são hiper pessoais e longe de mim levantar a bandeira que livros não servem para nada.

Mas a gente está tão acostumado a viver no piloto automático e a dar vazão às nossas ansiedades através do consumo, que acho muito importante fazer essas perguntas à nós mesmos.

Me cercar apenas dos objetos que realmente significam alguma coisa para mim aumentou muita coisa: o espaço livro na estante, a felicidade diária de cuidar desses objetos e a sensação de propósito cumprido.

E claro, vale lembrar: não existe um número mágico.

Eu posso ter apenas dez ou quinze livros que realmente sejam relevantes para mim e você pode ter trinta, cinquenta ou cem. Não existe certo e errado e a gente deveria dar uma folga para a patrulha do minimalismo.

Vamos apenas usar o nosso bom senso e ser honestos. Lá no fundo nós sabemos o que mantemos por perto por medo e ansiedade e o que realmente faz a diferença na nossa vida.

Ter ao alcance da minha mão apenas os livros que me deixam genuinamente animada e entusiasmada resgatou toda a alegria que esses objetos maravilhosos costumavam me trazer. E deixar para lá todos os outros que antes só ocupavam espaço tirou um puta peso das minhas costas.

Agora eu penso assim: todos os livros do mundo são meus.

Eles estão apenas esperando o dia em que eu vou poder lê-los. E se eu realmente tiver tempo e vontade, posso ir comprando aos poucos e dando para cada um deles a atenção e o carinho devidos.

Não sei vocês, mas esse pensamento fez a minha cabeça girar 360 graus.


E caso você ainda esteja em dúvida se vale mesmo à pena dar uma chance pra essa coisa de minimalismo, deixa eu te mostrar um vídeo incrível (em inglês) que abriu muito a minha mente. 👀

Foi com o Ryan, esse moço simpático que fala sobre livros no Youtube, que caiu a minha ficha: eu não tenho tempo para ler tudo o que eu gostaria de ler!

A minha vida é curta, minha gente.

 
 

Mesmo se fizermos uma matemática bem generosa, a verdade é que vão restar muitos livros não lidos por aí. De que adianta comprar livros por impulso se depois eu não vou querer mais lê-los?

Quanto mais impulsiva eu era, mais lotava a minha estante com coisas que eu me sentia obrigada a ler e muitas vezes nem me chamavam mais a atenção depois. Reparei que eu precisava ser bem mais criteriosa.

Do contrário, eu corria o risco de desperdiçar preciosas horas da minha vida lendo histórias e opiniões que não faziam nada por mim.

E tem coisa pior para um leitor do que se dar conta de todo o tempo que ele gastou com livros indiferentes e dos quais ele nem lembra mais do que tratavam? Tem não, hein.

Espero que esse texto-confissão seja útil para colegas leitores que estejam passando pela mesma coisa. E se essa carapuça serve em você, comente aí embaixo como você faz para lidar com tudo isso.

Te apetece a ideia de doar livros? Como você faz para manter o ritmo de leitura mesmo quando as compras andam meio desenfreadas?

Vamos trocar, conversar e todo esse jazz gostoso! 🙂 

 

👀 CURTIU? AQUI TEM + IDEIAS BACANAS PARECIDAS, Ó: