A valor da procrastinação: 2 dicas práticas para ser mais preguiçoso

Quando a gente pensa em organização e em produtividade a primeira coisa que geralmente sai pela janela é a procrastinação. Uma coisa parece excluir a outra, à primeira vista: se o seu dia foi produtivo você não deve ter parado para respirar nem por um segundo, né? Uma pessoa organizada que resolve muita coisa e está sempre tocando os seus projetos para frente, realizando os seus sonhos e cumprindo os seus prazos deve ser uma pessoa sempre ligada no 220, a gente presume.

E bem, até certo ponto é isso mesmo.

Existem fases da vida em que a gente precisa trabalhar muito e parar com frequência para descansar não é uma opção. Eu sou cem por cento contra qualquer tipo de romantização exagerada e não estou aqui para te dizer que a vida ideal é sempre inteiramente equilibrada, harmoniosa e perfeita. Ela não é. Mas, independente da situação de cada um, existe um nó que a gente precisa desfazer quando o assunto é procrastinação. Ou, para ser mais exata, existe um nó que a gente precisa resolver quando o assunto é produtividade.

Esses estados mentais são dois lados de uma mesma moeda.

E o texto de hoje serve para que você pare e pense um pouco sobre esse assunto. Eu quero que você entenda, de verdade, os benefícios e as vantagens de ser um pouco preguiçoso de vez em quando. Perceber que existe uma forma positiva de procrastinação e que o ócio pode ser um companheiro muito produtivo para a sua rotina são os meus dois grandes objetivos aqui. Eu sei que existem muitos “poréns” nessa discussão, mas o ponto central é muito válido.

Quanto mais a gente tem medo da procrastinação, mais forte ela fica.

Quanto mais a gente acha que é bacana e legal viver ocupado o tempo todo, correndo de um lado para outro, fazendo mil tarefas, mas não fazendo nada de realmente importante, mais vida a gente desperdiça. E preste atenção nessas palavrinhas mágicas da frase anterior: realmente importante. O que é realmente importante para você? O que você prioriza mais do que tudo hoje em dia? Você anda ocupado porque está focando cem por cento da sua energia nas áreas e nas iniciativas que você realmente ama? Ou está entrando na onda que estar ocupado vai te dar um status bacana? O que está ocupando o seu tempo de verdade?

Existem motivações e existem motivações.

Eu levanto a bandeira que ser ocupado por ser ocupado não adianta porra nenhuma. A vida está aí é para ser vivida e aproveitada – junto com as pessoas que importam e cheia das atividades e passatempos que realmente nos fazem felizes –, não simplesmente ocupada. Você pode preencher meia hora do seu tempo de muitas formas. Algumas vão valer à pena e vão te fazer se sentir super realizado e outras vão ser como uma porta que não leva a lugar nenhum – uma completa perda de tempo.

Eu vejo muitos leitores arrancando os cabelos por causa da procrastinação.

Como se ela fosse, em si, algo péssimo. Como se ela fosse o demônio encarnado em forma de atitude e a gente devesse fazer tudo o que está ao alcance para eliminá-la de uma vez por todas. Really, queen? Você realmente pensa que o problema está na procrastinação e não em você? Procrastinar não é algo ruim por si só. Quase nada nesse mundo é intrinsecamente ruim ou bom – e quase todos os comportamentos humanos só se tornam ruins quando eles atingem uma certa frequência ou intensidade. Procrastinar as suas tarefas todos os dias e permitir que o perfeccionismo roube a sua coragem de fazer as coisas é ruim.

Pensar que você só vai fazer merda o tempo todo – então é melhor nem começar nada – é muito ruim. Querer dar a sua atenção limitada para dez projetos igualmente importantes e urgentes, de preferência para já e ao mesmo tempo, é ruim demais. Ter medo de colocar o seu na reta – e acabar começando várias coisas e não terminando nenhuma – pode te transformar em uma pessoa muito arrependida lá na frente. Isso tudo pode acontecer e aí sim, eu concordo: essas coisas são maléficas.

Mas não coloque os seus problemas na conta da procrastinação. 👍

Ela tem o seu lado bom e ela pode trazer muitas vantagens, se usada na medida certa. Pense nela como o espaço branco que existe nas páginas do livro. Sem os espaços em branco entre as frases e entre as palavras, como é que você ia conseguir ler o que está escrito? O nosso sub consciente trabalha justamente quando nós não estamos focados. Quando a gente a se distrai, olha para fora da janela e se permite não fazer nada por alguns minutos muita coisa está acontecendo embaixo da superfície. Você pode não sentir e até achar que não está rolando nada, mas confie em mim: está. A sua mente é muito mais poderosa do que você imagina.

E decretar que a ação é a única forma de produtividade que existe é ter uma mentalidade curtinha e que ignora todo um manancial invisível e abstrato de outras forças. Isso acaba hoje, tá? Eu sei que nem todo mundo pode viver o ideal da preguiça e da contemplação e tudo bem. O meu objetivo não é esse. Eu quero só oferecer um outro ponto de vista – que, pelo que eu vejo, não é difundido o suficiente.

Outra coisa que eu não gosto nesse discurso (de que a gente precisa estar sempre ativo e sempre produzindo algo) é a presunção de achar que nós somos os responsáveis por tudo que acontece nas nossas vidas. Bitch, please: você não é o centro do universo. Os seus projetos não vão acontecer única e exclusivamente por causa das tarefas que você cumpriu e as suas conquistas futuras podem vir de lugares muito mais inesperados do que do seu planejamento para daqui a cinco anos.

É claro que a gente precisa fazer a nossa parte.

Mas a nossa parte é exatamente isso: uma parte. Um único pedaço de bolo que é composto por muitas outras fatias além da nossa. E para selar essa discussão, quero compartilhar duas coisas contigo: algumas frases de um artigo maravilhoso do Tim Kreider (um cartunista e ensaísta norte-americano) e duas dicas práticas para ser ocioso e preguiçoso da maneira certa, sem deixar a produtividade de lado.

 
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Eu sei que todos nós somos muito ocupados – mas o que, exatamente, está sendo feito? Será que todas aquelas pessoas que estão correndo e gritando nos seus telefones, atrasadas para reunião, estão tentando curar a malária?

Pelo amor de deus, cara, essa frase é muito boa. O que o Tim defende, logo no início do seu artigo, é a ideia que muitas pessoas se consideram mais importantes do que as outras pelo fato de serem ocupadas. Se você trabalha o dia inteiro, corre de um lado para o outro e vive no telefone – por favor, não se ofenda. A intenção não é essa.

A diferença está no que te leva a ser assim.

Às vezes a gente age como se tudo fosse urgente, imprescindível e fatal – quando, na verdade, faz muito pouca diferença. Por mais incrível que seja o seu trabalho, o mundo não vai explodir se você não entregar um projeto perfeito e impecável para o seu cliente. Se você não responder todos os emails à tempo e à hora: e daí? As pessoas vão cagar pra você e vão continuar seguindo com as suas vidas.

Você não é insubstituível e o seu trabalho não é a cura para a AIDS.

Então relaxa. Aceite as imperfeições e as falhas da vida e aproveite para sorrir de vez em quando. A questão não é sobre trabalhar muito ou trabalhar pouco, precisamente, e sim sobre ter uma percepção realista e corajosa de si mesmo. A vida já exige muito da gente sem que a gente precise botar mais lenha nessa fogueira, né?

 

Um dos meus correspondentes disse que o que nós temos medo, de verdade, é de ficar sozinhos com nós mesmos.

Você consegue dormir sem precisar ver televisão? Você consegue sentar e fechar os olhos por cinco minutos inteiros? Você consegue aproveitar bem o seu tempo sozinho, mesmo quando não tem nenhuma pessoa do seu lado? Você aguenta prestar atenção nos seus pensamentos? Você banca uma sessão de terapia de você com você mesmo, de vez em quando?

Se sim, tudo bem. Novamente eu digo: a questão não é o tempo exato que cada um de nós passa trabalhando. O problema é a intencionalidade das coisas. Se você vive ocupado por um bom motivo e se você sabe que o seu tempo está sendo gasto nas tarefas mais relevantes e valiosas para você, parabéns, de verdade.

Esse é um luxo que poucas pessoas podem ter.

Mas será que você está se ocupando para fugir de algo?

Algum medo, alguma carência, alguma mágoa ou alguma paranóia que seria muito ruim de ser admitida em voz alta? O que te faz querer ter o dia cheio de atividades? Porque você tem dificuldade em tirar férias de vez em quando? Porque a sua mente fica tão ligada no trabalho o tempo todo? Se ocupar por se ocupar é roubada.

Se faça essas perguntas e crie um tempo para você ficar com você mesmo.

Sem propósito, sem lista de tarefas, sem visões maravilhosas do futuro. Sem pessoas para conversar com você e sem nenhuma distração. Só você, sozinho, do jeito que você é e da forma como a vida está agora.

 

Apesar da minha resolução de ter uma vida mais ociosa ser mais um luxo do que uma virtude, eu fiz a escolha consciente de escolher tempo ao invés de dinheiro. Afinal, você sempre pode ganhar mais dinheiro.

A frase perfeita para coroar essa discussão, senhoras e senhores. Ela trás exatamente o meio termo que eu quero reforçar: ter uma vida mais tranquila, minimalista e lenta é um luxo sim, ponto final. Sobre isso não há discussão. E por mais que esteja na moda dizer que você é minimalista (em relação à roupas, à objetos ou ao seu tempo) esse objetivo não é mais nobre do que outros. Você pode fazer o que quiser da vida e o universo vai continuar rodando muito bem, obrigado.

Diminuir o ritmo das suas atividades é uma questão de saúde, às vezes.

Abrir mão da sua carga de trabalho e delegar projetos para outras pessoas com certeza vai te ajudar a ter mais tempo para a sua família, por exemplo. Ter uma vida mais ociosa e fazer tempo para o que realmente importa para você é ótimo, de verdade, mas não deixa de ser um luxo.

Se você pode ditar o ritmo das suas tarefas, aproveite.

Mas, de um jeito ou de outro, é inegável que o dinheiro é uma energia cumulativa e o tempo não. Bem ou mal, mesmo com todas as limitações, sempre é possível ter mais dinheiro. Mas todo minuto gasto é um minuto que não volta mais. E todo dia que você jogou na lata do lixo, agindo no automático e não parando para pensar em nada, é um dia que não volta mais. Vários dias assim seguidos, por muito tempo, resultam em uma vidinha de merda e em uma tonelada de desperdício. É isso o que você quer?

 

Faça pausas curtas ao longo do dia

Dica número um para ser preguiçoso da maneira certa: aceite que as pequenas pausas vão te deixar bem mais afiado e não tenha medo de fazer um espaço para elas na sua rotina de trabalho. Pausas curtas duram entre 5 e 10 minutos e o grande pulo do gato é que você literal e fisicamente pare de trabalhar e saia de perto da sua estação de trabalho.

Fazer uma pausa curta vendo um vídeo no youtube, olhando os seus emails e respondendo a comentários no twitter é uma ideia perigosa, aliás. Se você trabalha o dia inteiro no computador, assim como eu, você sabe o valor e o refresco que uma esticada nas pernas pode te dar. Ir lá fora, dar uns passos na calçada, beber uma água ou brincar com o seu gato são coisas tão pequenas e tão valiosas, gente. 

As pausas curtas são deliberadas. Elas fazem sentido acontecer.

Canalize o seu impulso de empurrar com a barriga e fugir das tarefas chatas e difíceis no hábito de sempre fazer pequenas pausas ao longo do dia – principalmente quando você estiver criando ou se dedicando às suas tarefas mais importantes. Parar de trabalhar é totalmente diferente de descansar, preste atenção. Você pode deixar o seu trabalho de lado e continuar se preocupando com ele, por exemplo. Você pode dar uma pausa na sua tarefa e ter a atenção sugada por um noticiário escandaloso sobre a última tragédia local, por exemplo. Isso não é descansar.

A ideia é tirar o seu cérebro do modo “foco” e colocar ele no modo “distração consciente”. Faça o seu melhor para sair de perto do computador, do celular e da televisão (eles já vivem do nosso lado o suficiente, né) e tirar a sua cuca do que você estava fazendo. Busque atividades analógicas e simples para banhar os seus pensamentos nas ondas da informalidade e da brincadeira.

 

Programe pausas longas para o seu dia

Dica número dois para não se sentir culpado enquanto você descansa: programe as suas pausas longas. E, obviamente, faça pausas longas durante o seu dia de trabalho. “Longa”, aqui, quer dizer qualquer período de tempo entre trinta e sessenta minutos. Brinque com as essas proporções até encontrar a janela de tempo que te serve.

As pausas longas são ótimas de serem postas entre atividades bem diferentes e cada um vai saber qual é o melhor período do dia para encaixar a sua. Pausas longas funcionam muito bem no meio da tarde para mim, por exemplo. Eu costumo acordar entre sete e meia e oito horas da manhã e trabalho até meio dia ou uma hora da tarde sem nenhuma pausa longa. A manhã é o meu período dourado.

É quando a minha energia está em alta e eu consigo produzir bastante com mais facilidade. Mas depois do almoço a história é outra. Fazer uma pausa longa bem no meio da tarde – tomar um banho, ouvir um podcast, lanchar, ler um livro – me revigora de um jeito impressionante. Isso sou eu.

Você precisa descobrir de que forma as pausas longas te beneficiam e isso, infelizmente, só vem depois de muita tentativa e erro. A mesma coisa que eu disse sobre as pausas curtas vale agora, também: tente variar o tipo de tarefa e de passatempo que você faz durante as suas pausas longas. É claro que ver um vídeo ou um episódio bacana de uma série são coisas ótimas. Mas fugir da rota comum e se esforçar para fazer algo ligeiramente diferente e inesperado tem muito valor.

Tudo isso só vai reforçar, aprimorar e expandir a sua capacidade mental e a sua criatividade. O seu trabalho vai vibrar mais depois do seu descanso – e, às vezes, é só por causa de uma pausa longa que você consegue ser ainda mais produtivo e cumprir mais tarefas do que você esperava. A mente agradece e o trabalho agradece.

 

Concluindo

A verdade é que eu ando cem por cento focada em trabalhar, ultimamente. Quem me acompanha mais de perto e quem conversa comigo nas redes sociais já tem uma boa ideia disso. Eu não posso falar sobre slow living e sobre como ter uma vida contemplativa e ociosa se eu mesma não estou fazendo isso. E te contar? Eu estou feliz para caramba com o modo como eu estou gastando a minha energia. Como eu sempre digo: essa é uma escolha pessoal e intransferível – e quem precisa estar satisfeito com a sua vida é você e mais ninguém.

Mas fazer pausas sempre é importante.

Abrir tempo para cuidar de você e deixar que o seu corpo se regenere e que a sua mente relaxe é muito importante. Sem isso o seu trabalho vai parar e você vai pifar, mais cedo ou mais tarde. E se o seu ritmo de vida está atrapalhando a sua própria capacidade de aproveitar a vida, pra que continuar nele, cara?

Nem tanto ao mar, nem tanto a terra.

Como você enxerga essa questão? O que você diria para as pessoas que vivem ocupadas o tempo todo e nunca tem tempo para nada? Você é uma dessas pessoas? Compartilhe as suas ideias e deixe os seus dois centavos de contribuição aí embaixo, meu bem. Muitas pessoas podem lucrar com eles.


🎗 CURTIU? AQUI TEM + IDEIAS BACANAS PARECIDAS, Ó: