Sobre o perigo de querer ser perfeito o tempo todo

Sim, você vai passar por crises. Muitas delas, na verdade.

Você vai duvidar de você mesmo, vai querer deixar tudo para lá. Vai deixar a bola cair, vai cometer erros. Você vai precisar pedir desculpas, recalcular a rota e pensar em soluções criativas. Vai precisar se conhecer e descobrir o que você realmente quer.

Desculpa te dizer, mas nesse quesito você não é especial.

O cara que senta do seu lado no ônibus tem crises. A motorista do táxi tem crises. Seus colegas de trabalho e os filhos adolescentes deles tem crises. As pessoas mais realizadas, felizes e cheias de dinheiro que você conhece também tem crises.

Estamos todos no mesmo barco, tentando descobrir como continuar remando depois do mar jogar dois metros de água salgada na nossa cara. Nem sempre é fácil, nem sempre é bonito.

Teoricamente, sabemos que precisamos viver com as nossas imperfeições. Teoricamente, sabemos que ninguém consegue ser perfeito. Mas será que sabemos mesmo?

Nos jornais, revistas, livros e palestras todo mundo repete essa reza. Mas quantas pessoas podem dizer que vivem essa convicção?

– isso me lembra de uma expressão em inglês: you talk the talk, but don’t walk the walk, que significa algo como: falar da boca pra fora, mas não fazer por onde –

Do jeito que eu vejo, a pressão para sermos perfeitos ainda mora nas nossas cabeças. Ou será que sou só eu?

 
O perfeccionismo é super inteligente. Ele é dissimulado e se faz de desentendido. Some por um tempo, finge que foi tirar férias, e de repente dá um susto.
 

Você precisa ganhar o melhor salário da empresa, fazer o melhor trabalho de faculdade, criar o blog perfeito, escrever a melhor dissertação do mundo, ser a mãe mais impecável que já andou pela face da Terra, atender às demandas de todos, nunca desagradar ninguém, ganhar a medalha de ser humano exemplar e ainda conseguir fazer exercícios físicos, se alimentar bem e contribuir para a sua comunidade.

Os padrões parecem ser cada vez mais altos e complexos.

E não se engane: o perfeccionismo é super inteligente. Ele é dissimulado e se faz de desentendido. Some por um tempo, finge que foi tirar férias, e de repente dá um susto. Nem sempre a gente admite isso em voz alta, mas vira e mexe ele se faz presente.

Será que existe solução para isso?

É possível se aceitar de uma vez por todas, sem expectativas bizarras e impossíveis? Dá para nos desafiarmos de forma saudável sem ficarmos exaustos?

Eu não tenho uma reposta mágica, mas quero compartilhar com vocês algumas perspectivas que ajudam a nos livrar dessa pressão de ser bom em tudo o tempo todo.

 
 

Ser espontâneo é o que nos conecta

Eu sei que, teoricamente, todo mundo gostaria de ser perfeito. Mas você já reparou que as pessoas, grupos e empresas que a gente mais gosta geralmente são as mais espontâneas?

A gente se conecta e se enxerga mais nas pessoas imperfeitas.

Aquelas que são naturais, autênticas e vulneráveis. As que mostram o seu lado humano e que nos deixam ver por trás da cortina. Pessoas e iniciativas honestas, que falam do coração, transmitem integridade e que nos deixam os seus defeitos reais.

Lembra que eu disse que todo mundo passa por crises? Pois é. Qual seria a graça de acompanhar artistas, empreendedores e empresas que nunca passam por crise?

Imagine ver um vídeo ou ler o blog de alguém que pareça ser perfeito o tempo todo. Alguém que sempre tem as respostas certas, que nunca volta atrás no que disse, que nunca compartilha uma história vergonhosa. Ia ser robótico, estranho.

A gente não interage ou se apaixona só pelas coisas perfeitas. Queremos olho no olho, interação genuína, alguém que se importe com a gente de verdade.

 

O que você se diverte fazendo?

Como já te disseram, viver não é uma coisa fácil. Acho que você já comprovou isso na pele, né?

Se você exigir muito de você mesmo, sempre tendo expectativas e esperanças de ser o super homem ou a mulher maravilha, provavelmente vai terminar se exaurindo. Vai ficar se arrastando; sempre cansado, sem motivação e procrastinando todos os projetos.

Quando a gente se impõe algo que não conseguimos fazer de verdade, o corpo dá um sinal. Ele retrocede e nos puxa para trás como um burro que empaca no meio do caminho.

Fazer projetos ou tarefas que estão muito longe do nosso propósito de vida e que não tem valor nenhum para o nosso coração cansam muito mais do que as outras. Ter clareza do que você curte fazer (mesmo que seja “trabalho”) é essencial.

O que te dá ânimo, excitação e esperança? O que você genuinamente se diverte fazendo? Dentro do seu trabalho, da sua família, da sua roda de amigos: o que te dá gosto fazer? Saiba que coisas caem nessa categoria e faça mais delas!

Ó, não me entenda errado: não estou dizendo para você fazer o que quiser o tempo todo, ao seu bel-prazer. Às vezes a gente precisa, sim, insistir e persistir em alguns projetos ou tarefas “chatos”. Mas existe um limite.

Você não vai poder deixar de trabalhar ou de pagar as contas, mas com certeza pode deixar para lá algumas tarefas e projetos que te parecem essenciais mas que, na verdade, não são.

Quando é que o seu corpo simplesmente desarma de tanto cansaço? Quais atividades chatas e vazias você se impôs e taxou de “obrigatórias”?

Algumas coisas vão ser “chatas, mas necessárias” e outras serão “totalmente desnecessárias, só estava tentando fazer porque eu quero abraçar o mundo com as pernas e provar para mim mesmo/a que sou f*”.

 

Feito é melhor do que perfeito (mesmo)

Você já ouviu essa frase milhares de vezes, né?

Pois bem. Eu estou aqui para dizer que isso é verdade sim. Não é exagero nem frase clichê. Se você (como eu) tem problemas com procrastinação porque, infelizmente, não consegue atingir o nível magnífico de perfeição que a sua mente te impõe, que tal tatuar essa frase na testa?

Acho uma ótima ideia. Pode só escrever isso e colocar bem no meio da sua porta, também. Vá lá, eu te espero aqui.

O caso é o seguinte: se você ficar esperando estar apto para produzir o trabalho incrivelmente perfeito que gostaria de fazer, você vai morrer esperando. Ou melhor: vai morrer sem ter feito absolutamente nada. Vai ser mais um número na lista imensa de pessoas que não fizeram o que queriam e que não deixaram legado nenhum para ninguém.

Essa é uma lição de humildade que eu demorei para aprender.

Deixar de agir porque você não quer ser o responsável por uma obra menos do que perfeita é o ápice da vaidade. O nosso medo de ser criticado e de não chegar aos nossos próprios padrões tirânicos de perfeição pode ser avassalador.

Pode ser tão avassalador que, por via das dúvidas, a gente não faz nada.

Se esse for o seu caso, a melhor dica que posso te dar é: comece. Sim, comece. De verdade. Mão na massa, mangas arregaçadas.

Confie no efeito composto: é melhor fazer algo não-tão-perfeito todos os dias e ir ficando cada vez melhor ao longo do tempo, do que esperar fazer algo totalmente perfeito logo na primeira vez.

Estou vivendo na pele todas essas dificuldades. Começar esse blog era uma daquelas coisas que vivia dizendo que ia fazer, mas nunca fazia.

É difícil publicar um texto que eu mesma não acho grandes coisas? Sim. Vivo em dúvida de qual é o próximo passo? AHAM.

Mas entre trabalhar para o meu sonho de vida e deixar tudo para lá por causa dos meus medos, escolho o primeiro.

Vamos lá, não seja tímido: conta pra mim nos comentários qual tem sido a sua maior crise. Você também é perfeccionista demais? Compartilhe a sua história. Quem sabe ela não ajuda alguém?


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