O meio termo entre vida leve e saber tomar atitudes

Essa semana eu estava vendo um vídeo de uma youtuber famosa onde ela falava sobre as ideias que tinha tido para o primeiro vídeo de dois mil e dezessete. A primeira coisa que tinha vindo à cabeça era falar sobre os objetivos que ela teria ao longo do ano: onde queria chegar, o que queria fazer.

Ela até começou a escrever uma lista de metas, mas de repente uma voz pipocou na cabeça dela e disse: “é melhor você não criar expectativas”.

Prontamente essa ideia foi descartada e ela decidiu fazer um vídeo sobre as coisas mais importantes que ela aprendeu até hoje – o vídeo que eu estava assistindo, justamente.

Nos comentários do youtube e no twitter, várias meninas fizeram coro e aplaudiram o princípio universal de “é melhor não criar expectativas”. Afinal, a gente se dá mal justamente quando vamos com muita sede ao pote e o melhor a fazer é tirar o seu time de campo antes que dê ruim, né?

 
 

Bom, vamos lá.

Entendo totalmente o que ela queria dizer - a gente realmente fantasia demais sobre o futuro e superestima várias coisas, especialmente quando somos jovens -, mas parte de mim ficou bem incomodada com esse enquadramento.

Quis vir aqui compartilhar um dedo de prosa sobre o assunto não para problematizar (pelo contrário, adoro o conteúdo que essa moça fofíssima produz e ela é uma das youtubers mais conscientes que já vi), mas para complementar essa linha de raciocínio e colocar uma pitada de assertividade na conversa.

Começando pelo início, vamos falar um pouquinho sobre medo. 🆘

Sabe quando você está numa certa situação e termina quebrando a cara? Sabe quando você quebra a cara bem feio várias vezes, sempre no mesmo contexto? A reação natural é começar a ter um misto de raiva e medo daquele cenário.

Sim, todo mundo tem algum trauma. Todo mundo já confiou demais, fantasiou demais ou acreditou demais em uma certa ideia, pessoa ou situação e terminou levando uma senhora rasteira.

É o famoso medo de quebrar a cara.

Todos nós temos esse medo e que atire a primeira pedra quem disser o contrário. Até certo ponto somos iguais àqueles ratinhos de laboratório: se o mundo vive nos dando choque todas as vezes que a gente faz tal coisa, vamos começar a aprender que as duas coisas estão interligadas.

Mas quando escuto alguém dizer que é melhor não criar expectativas, escuto distintamente a voz do medo de quebrar a cara falando bem alto. A vontade de escapar daquele cenário de tristeza e sofrimento é tão grande que a gente termina fazendo quase qualquer coisa para não passar por isso de novo.

Não quero dizer com isso que o medo que sentimos é uma completa perda de tempo, longe disso. A arquitetura do medo é na verdade muito da inteligente e foi construída para que os seres humanos pudessem sobreviver a qualquer tipo de perigo.

Sem medo a gente morreria.

Mas até que ponto o medo gutural de sofrer nos impede de ter novas experiências? Até que ponto nós roubamos de nós mesmos várias iniciativas e projetos interessantes e saudáveis porque estamos, na verdade, morrendo de medo de quebrar a cara de novo?

Por mais essencial que o medo seja, ele não pode dar as ordens. Porque se depender dele vamos a passar a vida inteira confortavelmente sentados dentro de uma bolha, cercados apenas de coisas familiares e inofensivas.

O que nos leva ao segundo problema dessa equação: confundir flexibilidade com falta de atitude e confundir maturidade com distanciamento.

Por causa de todas as topadas e puxadas de tapetes que a gente viveu, acabamos colocando na nossa cabeça que o legal mesmo é ser distante e frio. Meio blasé, meio que já sabendo que nada vai dar certo de qualquer forma, então é melhor cortar as nossas ambições, instintos e carências pela raiz. 

Acabamos querendo ficar por cima da carne seca para evitar sofrimentos futuros e imaginamos que o ideal é chegar naquele estado em que fazemos tudo sem nunca esperar nada em troca.

Isso me lembra de uma das entrevistas mais lindas, incríveis e inspiradoras que eu já vi na vida: a que Elizabeth Gilbert deu para o programa da Marie Forleo. Ela enquadra esse tema da forma mais sensível, dura e honesta possível.

 
 

A verdade é que o buraco é mais embaixo e a gente não pode confundir maturidade com falta de atitude. Ser maduro é algo que nasce com os anos, com as experiências boas e ruins, e que nos torna capazes de entender as verdades da vida com um pouco mais de clareza.

Ser maduro é conseguir separar o joio do trigo.

Por um lado, é claro que a vida é difícil. Não existe nenhuma fórmula mágica para encontrar o caminho das pedras e nenhuma garantia que um dia você vai conquistar tudo o que sempre quis. A verdade é amarga e extremamente necessária para que a gente não se iluda – principalmente quando estamos falando das nossas metas e objetivos de vida.

Sermos capazes de avaliar friamente o nosso momento de vida e se estamos ou não preparados para atingir aquele objetivo é sinônimo de maturidade. Dar um passo para trás e deixar de sonhar ou de se arriscar porque estamos com medo de quebrar a cara não é.

As pessoas que conseguem conquistar as suas metas de vida com certeza também sentem medo. Elas também sabem que talvez as probabilidade de sucesso não são assim tão grandes ou que talvez elas não sejam tão talentosas quanto deveriam ser – mas e daí?

Para mim a vida adulta realmente começa quando a gente consegue pensar e sentir dois sentimentos contraditórios ao mesmo tempo e não deixar que isso nos paralise. Saber que o caminho vai ser difícil, ardiloso ou que vai levar muito tempo para você chegar aonde você quer e não deixar que nada disso te tire o tesão de viver – esse é o objetivo máximo.

Quando escuto pessoas novas falarem que preferem não criar expectativas penso logo no bando de coisas (projetos, teorias, estratégias e boas oportunidades) que elas poderiam ter a seu favor e que talvez terminem sendo deixadas de lado.

Quantas coisas nós perdemos porque estamos ocupados demais nos agarrando ao corrimão da zona de conforto? Quantas coisas nós realmente faríamos se deixássemos que o nosso medo servisse de aviso para onde devemos ir, ao invés de freio que nos impede de seguir em frente?

Agora, um aviso. 🙋

De forma nenhuma eu estou defendendo que deveríamos levar uma vida cem por cento feliz, satisfeita e totalmente planejada. Coisas boas acontecem mesmo quando a gente não planeja – e passar algum tempo navegando ao sabor do vento pode nos levar a alguns lugares inesperados e interessantes.

Afinal, como disse o Ted Mosby do seriado How I Met Your Mother:

 
Os grandes momentos da sua vida não vão ser necessariamente as coisas que você faz – eles também vão ser as coisas que acontecem com você.

Os grandes momentos da sua vida não vão ser necessariamente as coisas que você faz – eles também vão ser as coisas que acontecem com você.

 

O universo é bastante inteligente: eles nos dá livre arbítrio, mas só até certo ponto. Existe uma avalanche de coisas que a gente não pode controlar. Ser uma pessoa profundamente organizada, esclarecida e produtiva é muito bom, mas a verdade é que às vezes a vida simplesmente acontece totalmente fora dos nossos planos.

Ninguém é obrigado a correr atrás dos seus sonhos e a ter a vida que sempre sonhou. Ninguém é obrigado a ter metas e objetivos e a trabalhar por eles vinte e quatro horas por dia, todos os dias da semana.

A gente precisa descansar, viajar, ficar parado olhando para o céu, dizer sim para convites aleatórios e aproveitar um pouquinho dessa sopa gostosa de caos aleatório que a vida nos dá. Não somos máquinas robóticas que seguem a programação previamente instalada o tempo todo.

Precisamos nos reciclar, recalibrar nossos sentimentos, aprender coisas novas e sermos felizes no momento presente – mesmo que ele não seja especialmente produtivo ou cheio de glamour.

Mas a verdade continua sendo uma só: se você não correr atrás do que você quer, ninguém mais vai. Se você não se posicionar, outras pessoas e ocasiões aleatórias vão decidir o rumo da sua vida por você. Se você sempre deixar o seu medo falar mais alto, você nunca vai viver todo o potencial incrível e maravilhoso que você tem aí dentro. 🌿

Precisamos seguir o caminho do meio: nem oito, nem oitenta. Precisamos nos dar tempo e espaço para as coisas acontecerem, precisamos curtir a nossa fossa, precisamos quebrar a cara algumas vezes sim. Mas também precisamos sonhar, precisamos florescer e precisamos viver a vida do jeito que a gente quer.

A gente tem mais é que almejar coisas difíceis e sonhar com conquistas exóticas mesmo; essa é uma das grandes graças de estar vivo, oras. É aquela velha história que vocês já conhecem: ninguém se arrepende tanto das coisas que fez quanto das coisas que não fez.

Então fica aqui o meu apelo.

O apelo para que sejamos cada vez mais pró-ativos. Para que peguemos a responsabilidade no colo e façamos valer toda a nossa energia. De forma nenhuma quero desmerecer as pessoas que não criam ou que não criaram metas para elas mesmas no começo do ano.

Não condeno quem prefere não criar expectativas e muito menos o vídeo que me fez dar início à toda essa conversa. Mas precisava compartilhar o meu ponto de vista para inflar vocês um pouquinho e, quem sabe?, acender um fogo aí dentro. O nosso tempo por aqui é limitado, minha gente.

Não vamos desperdiçá-lo.


☂️ CURTIU? AQUI TEM + IDEIAS BACANAS PARECIDAS, Ó: